Desencontros, emprego e crianças

Há algum tempo eu falei da minha saga de procurar outro emprego. Aqui você pode ler por que pedi demissão e aqui e aqui como foi fazer entrevista com famílias irlandesas (e uma búlgara).

No total, fiz 6 entrevistas e como ficou óbvio no post que as descrevi, eu fui contratada pela última família. Eles foram uns fofos comigo no dia que os conheci e têm sido até hoje. 🙂

Fiz a entrevista na sexta-feira antes do Natal e no mesmo dia, quando cheguei em casa, mandei um email para eles com minhas referências (a família americana e a escola de inglês para crianças onde trabalhava). Minha surpresa é que eles conseguiram ligar para os dois no mesmo dia! No dia seguinte, a mãe me ligou.

“Hi, Biiitrrriz! How do you pronounce your name in Portuguese?”
“BE-A-TRIZ, but don’t worry about that.”

Fiquei sabendo que ela me perguntou isso porque foi difícil para a coordenadora da escola entender de quem ela estava falando e imagino que para a família americana também, porque eles me chamavam de Bia.

Enfim, ela me ligou para dizer que havia conseguido contatar minhas referências e havia ficado muito feliz com o que havia ouvido. Disse que gostaram muito de mim e perguntaram se as minhas expectativas estavam de acordo com a vaga oferecida. Sim, estavam. Mas havia um probleminha. Eu já havia avisado para ela que eu estava com viagem marcada e não poderia começar em 07/01, como ela gostaria, mas só no dia 21. Ela disse que como eu era a pessoa certa, que daria um jeito. Depois do Ano Novo, ela me ligou para saber como eu estava e dizer que o marido iria pegar 2 semanas de férias do trabalho para ficar com os meninos enquanto eu viajava. O que falar de uma família dessas? 🙂

A família

B., a mãe, é professora primária de uma tradicional escola irlandesa. A escola é bilíngue, o que quer dizer que as aulas são em irlandês- ela fala irlandês fluentemente. K., o pai, trabalha no centro, mas não sei dizer o que ele faz exatamente. O menino mais velho, F., tem 3 anos. F. é tranquilo e já fala muito! Ele ainda não consegue fazer os sons do ‘r’, então é muito fofo quando ele pede para eu ler uma “sto-ee” (story) para ele ou quando  diz que está brincando de “pi-ates” (pirates). O mais novo tem 1 ano e 8 meses e é a coisa mais linda. O. ainda não fala, mas não para de fazer sons, fazendo caras e bocas como se estivesse conversando! Ele fala uma palavrinha ou outra, mas consegue me dizer tudo que ele quer: se estou lavando a mão e ele me dá a chupeta, está pedindo para eu lavá-la. Se está com fome, pega minha mão e me leva para cadeirinha dele na cozinha e por aí vai. F. e O. são meninos lindos (sim, loirinhos de olhos claros, mas não por isso) e educados. Não fazem birra, não brigam e não são mimados. Obviamente, são meninos pequenos cheios de energia e que gostam de brincar, escalar tudo que conseguem, correr, explorar e enfim, serem crianças! 🙂

Os pais são pessoas maravilhosas! A mãe não trabalhou nos meus dois primeiros dias para poder me mostrar a rotina deles. O pai deixou todo passo-a-passo para ligar TV e DVD para eles (ah, gente, não me ligo nessas coisas). Eles sempre me perguntam se está tudo bem (com as crianças e comigo), se estou feliz em trabalhar para eles ou se eles podem fazer algo para melhorar meu dia com as crianças. Eu faço as refeições na casa e eles vivem perguntando se eu quero que eles comprem algo no mercado e que se eu lembrar de algo que queira comer durante a semana, é só mandar um sms para eles pedindo. Claro que eu fico sem graça de pedir qualquer coisa, mas eles têm tudo em casa e me alimento bem. O que foi bem engraçado é que no primeiro dia a mãe me perguntou o que eu costumava comer. Respondi na inocência, sem imaginar que ela estava perguntando para saber se ela tinha tudo em casa. Lembro que deixei claro que sempre comia arroz e variava o resto do cardápio. Não é que na semana seguinte achei mil tipos de arroz no armário?

A rotina

Trabalho das 7h30 às 15h30, o que significa que preciso acordar às 6h e essa é a parte ruim da história. Não dá para ficar com 2 crianças com sono, então preciso me policiar para ir para cama cedo, o que nem sempre é fácil, mesmo que eu esteja com sono.

Os meninos costumam acordar entre 8h e 8h30. Brinco com eles um pouco, preparo o café da manhã, brinco mais, preparo o lanchinho da manhã, troco os dois e saio de casa (parque, shopping, quintal, playground) para tomar um ar fresco (isso quando o tempo bipolar da Irlanda colabora). Voltamos, esquento o almoço que a mãe já deixa pronto na geladeira e depois coloco os dois para ver desenho enquanto eu almoço e arrumo a bagunça da cozinha. O engraçado é que F. gosta muito de Fireman Sam, um desenho sobre bombeiros, e todo dia eu coloco o mesmo DVD com os mesmos episódios e ele assiste como se nunca tivesse visto antes. Depois disso, o pequeno vai tirar uma soneca e eu faço alguma atividade com F. ,como pintura, brincar com massinha, montar quebra-cabeças ou qualquer coisa que não seja possível fazer enquanto O. está acordado. Dou o lanche da tarde para eles (ou só para o F. se o O. ainda estiver dormindo), a mãe chega e vou embora. 🙂

F. adora "bubbles"!
F. adora “bubbles”!

Já falei do emprego e das crianças, agora falta falar da primeira palavra do título deste post: desencontros.

A família deixou bem claro que iria esperar um mês para eu começar e que não tinham segunda opção, pois fui a única entrevistada. Logo, me pediram para dar minha palavra de que eu não desistiria e os deixaria na mão. Dei e cancelei todos os meus cadastros em sites de au pair e afins.

No primeiro dia útil do ano, depois da minha viagem a Londres, eu vejo várias chamadas não atendidas no meu celular. Como não sou nem um pouco curiosa e não estava esperando ligação de ninguém, nem dei bola e nem chequei a caixa postal, porque eu nem gosto de fazer isso (se for importante de verdade, a pessoa vai me ligar novamente – errada ou não, é assim que penso).

No final de semana seguinte, B. me ligou e não atendi. Como vi que ela deixou mensagem na caixa postal, resolvi pegar o recado. Mas antes, eu precisei ouvir todas as mensagens antigas que eu não havia checado ainda. E o tal número não atendido daquela semana era de quem? Da mãe da primeira entrevista, aquela que ficou de me dar a resposta e nunca mais me procurou. Ela estava perguntando se eu ainda estava interessada na vaga, pediu para retornar a ligação e me deixou morrendo de raiva. Primeiro porque se ela tivesse me retornado logo depois da entrevista (que foi feita antes mesmo de eu pedir demissão), eu não teria perdido tempo com as outras famílias; segundo, que eu já tinha me comprometido a trabalhar para a família de B. e não teria coragem de desistir depois de ter dado a minha palavra – a primeira família estava pagando mais do que a que me contratou.

Porém, me acalmei e pensei que nem tudo na vida se resume a dinheiro. A mãe desta primeira família também é professora primária e com certeza já precisaria que eu começasse no dia 07 (o que não iria rolar) e além disso, se eu tivesse fechado com eles ainda em dezembro, não teria viajado pela Europa em janeiro, o que teria sido uma pena, já que a viagem foi muito boa e adorei a Polônia! Mas que deu raiva, deu…

K., B., F. e O. são uma família maravilhosa e pessoas muito boas, então acho que tive sorte de ser “achada” por eles. Estou feliz e satisfeita com meu novo emprego, adorando os meninos (embora eu fique bem cansada) e creio que este será meu emprego até terminar meu intercâmbio aqui nesta terra de leprechauns! 😉

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4 comentários sobre “Desencontros, emprego e crianças

  1. rickmartins

    Que massa, Bia! Parabéns pelo novo emprego, espero que corra tudo muito bem! Realmente, as crianças daqui são lindas…hj, voltando pra casa depois de ter ido no Spar, vi umas 7 crianças brncando na rua… os meninos jogavam bola e as 3 crianças menores (duas meninas e um menino), subiam no muro de casa e brincavam de pega…. e estava um friooooooooooooooo…

    O frio não as impede de serem crianças e as mães não prendem em casa…achei legal.

    Estou começando a saga por um emprego também…quero algo em um shopping aqui perto…vamos ver!

    Anota meu cel e me manda um text pra gente marcar nosso café! Quero mto te conhecer! 087 701 9540

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